sexta-feira, 16 de abril de 2010

O custo dos transportes


Os deputados eleitos para a Assembleia da República que residem fora da Grande Lisboa podem receber até mais €2.144,89 por mês no vencimento. São apenas 154 em 230, uns meros 67% do total. Acho muito bem que assim seja. Coitados deles (e delas, que apesar de raramente se falar de deputadas há para aí muitas), terem de se deslocar até à Assembleia alguns dias por semana para "ver o que se passa", navegar um bocadinho na net (num portátil a sério, que isso do Magalhães só é bom para crianças) e ligar à família pelos telefones do hemiciclo (sim, que os malandros das operadoras móveis voltaram a aumentar os preços). Se queremos que estas importantes funções sejam desempenhadas, temos de dar condições para isso. Não estão à espera que, para além do que eles (e elas, que apesar de raramente se falar de deputadas há para aí muitas) fazem por nós, ainda tivessem de pagar as viagens de ida e volta como um qualquer trabalhador (braçal ou não), com o demagógico argumento que ganham muito mais que a média de quem realmente trabalha. Já basta o sacrifício de servir a Nação...

terça-feira, 30 de março de 2010

Pronto, já passou...


Ainda bem. De facto, quando surgiram as primeiras notícias, parecia uma catástrofe, uma calamidade, um pesadelo tornado realidade. Algo que não deveria e não poderia ter acontecido. Algo que ainda nos recusávamos a acreditar. Mas era verdade. Um país completamente destruído, como se os deuses tivessem pegado no mapa e o rasgassem em pedaços. Só porque sim. Haiti. A desolação foi geral, estendeu-se a todo o planeta. Um sítio tão aprazível para passar férias, tão acessível à bolsa da classe média, a qual passava por alta nesta terra pobre mas que tão generosamente se deixava explorar. Criou-se uma onda global para reconstruir uma das nossas mais agradáveis casas de férias. Pois ele era jornalistas, tão empenhados na reconstrução que até andavam pelo meio das ruas em táxis alugados após feroz leilão. Que se atiravam de janelas do 1º andar para eles próprios sentirem na pele o que os locais sentiram (alguns invejosos dirão que um tornozelo torcido não é o mesmo que morrer esmagado debaixo de um prédio, mas a intenção é que conta). Pois ele era religiosos (fanáticos aproveitadores, para os maldizentes) a salvar criancinhas orfâs (e mesmo as que o não eram) de um destino terrível, levando-as para os braços de caridosas famílias, as quais nem se importavam com a cor dessas crianças (até porque não seria tão dispendiosa a sua aquisição). Pois ele era artistas (que nunca o foram e deveriam continuar no fundo do baú das más recordações, dirão alguns) a escrever músicas e fazer concertos para contribuir com a receita de discos e espectáculos para a reconstrução (com uma parte apenas dos ganhos, porque isto de ser solidário sempre dá despesa e trabalho). Pois ele era voluntários de todo o mundo que todos os dias saíam de manhã dos seus hoteis com ar condicionado para andar no meio daquela desgraça a contar mortos e a dar entrevistas ao lado de feridos (os menos desfigurados, porque isto é para comover as pessoas que vêem na televisão e não para as enojar, tanto mais que normalmente estas imagens passam à hora das refeições). Até nós, neste cantinho tão longínquo, contribuímos e participámos. Toca de ligar para dar os nossos €0,60 mais a taxa do IVA, que isto é um país que não foge às suas responsabilidades (na realidade eram apenas €0,50, porque isto de ser solidário sempre dá despesa e trabalho). Toca de ver as figurinhas das novelas e revistas a atender telefones em directo para a televisão (que é aborrecido ter de gramar com as conversas de quem liga, mas é sempre bom aparecer). E pronto, todos ficámos consoladinhos, de consciência tranquila, a dormir reconfortados por "termos feito tudo o que podíamos por aqueles pobres desgraçados, que até nem conhecemos, mas é assim, temos de ser uns prós outros!". Agora já deixámos de ouvir falar dessa desgraça. Ainda bem, até se ficava sem apetite quando as imagens passavam na televisão. Algumas vezes até se tinha de mudar de canal. Mas pronto, já passou. Pelos vistos aqueles €0,60 mais a taxa do IVA foram bem empregues...